Itapecuru-Mirim (MA) – A Semana Santa, marcada pela tradição do consumo de peixe, tem se consolidado também como uma importante oportunidade de geração de renda no campo. No Maranhão, o aumento da demanda por pescado durante a Quaresma — que pode crescer até 40% — impulsiona a produção e fortalece a atuação de pequenos produtores rurais, com destaque para aqueles assistidos pela Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) do Senar.
A tradição cristã de substituir a carne vermelha pelo peixe, especialmente na Sexta-feira da Paixão, atravessa séculos e segue presente na mesa das famílias brasileiras. Embora o consumo médio anual de pescado no país ainda seja de cerca de 9,5 kg por habitante — abaixo dos 12 kg recomendados pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) —, a procura pelo produto aumenta significativamente durante a Quaresma, aquecendo o mercado em todo o país.
Nesse cenário, a piscicultura tem ganhado destaque como uma das cadeias produtivas mais dinâmicas do agro brasileiro. Em 2024, o país produziu 968,7 mil toneladas de peixes de cultivo, com crescimento contínuo impulsionado pelo avanço tecnológico e pela organização da atividade.
No Maranhão, esse movimento é ainda mais evidente. A produção estadual atingiu 54,5 mil toneladas em 2024, crescimento de 10,9% em relação ao ano anterior. O estado conta com cerca de 14,4 mil hectares de lâmina d’água e aproximadamente 50 mil viveiros escavados, consolidando-se como uma das principais bases produtivas da região.

Mais do que volume, o Maranhão também se destaca em eficiência. Dados recentes apontam que a margem bruta da piscicultura no estado já alcança R$ 5.361 por hectare — cerca de 28% acima da média nacional, estimada em R$ 4.202/ha. O resultado posiciona o estado como referência em rentabilidade no Brasil e reflete diretamente o impacto da assistência técnica e da gestão aplicada nas propriedades rurais.
Esse avanço tem apoio direto da Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) do Senar, que hoje atende mais de 10 mil propriedades rurais em quase 200 municípios maranhenses, por meio da atuação de cerca de 480 técnicos de campo. Na piscicultura, a metodologia tem promovido mudanças significativas no manejo, no controle de custos e na organização produtiva.
Em Itapecuru-Mirim, esses resultados se traduzem em oportunidades concretas. Por meio de um edital público da prefeitura, 20 piscicultores assistidos pela ATeG foram habilitados para fornecer cerca de 20 toneladas de peixe durante a Semana Santa. Na prática, cada produtor comercializou, em média, uma tonelada de pescado — volume que representa um avanço importante na renda dessas famílias.

A iniciativa é fruto de uma atuação conjunta entre o Sistema Faema/Senar, o Sindicato dos Produtores Rurais de Itapecuru-Mirim e a Prefeitura Municipal, por meio da Secretaria de Agricultura, e evidencia o potencial das compras públicas como instrumento de desenvolvimento local.
Na propriedade do produtor Raimundo Nonato Martins, no povoado Fandango, a transformação é visível. Assistido pela ATeG há quase dois anos, ele destaca a evolução da atividade e as perspectivas de crescimento.
“Com a assistência técnica, melhorou bastante. Hoje a gente consegue produzir mais e com qualidade. E eu quero crescer ainda mais, aumentar minha produção”, afirma.
Para o piscicultor Nadson Veras, a participação em processos de comercialização estruturados representa um novo momento para a atividade.
“A gente já tem uma clientela formada, mas participar de uma venda desse porte é diferente. Isso mostra que o nosso trabalho tem valor e pode crescer ainda mais”, destaca.
De acordo com a engenheira de pesca e técnica de campo do Senar, Leonildes Ribeiro, o diferencial está na organização da produção.
“A ATeG trabalha o manejo, mas também a gestão. O produtor passa a entender sua atividade como um negócio, se organiza e consegue acessar mercados que antes pareciam distantes”, explica.

A iniciativa também fortalece a economia local. Segundo o secretário municipal de Agricultura, Luís Fernando Lopes, a prioridade foi valorizar os produtores do próprio município. “Essa ação foi pensada para incentivar a produção local, gerar emprego e renda e movimentar a economia de Itapecuru”, afirma.
O prefeito de Itapecuru-Mirim, Felipe Marreca, destaca o impacto social e econômico da iniciativa, que envolveu a aquisição de cerca de 20 toneladas de peixe junto a 20 produtores locais, gerando uma injeção de mais de R$ 300 mil na economia do município. “Esse é um momento importante de solidariedade, de atender quem mais precisa, mas também de valorizar os nossos produtores rurais. É uma ação que fortalece o campo e garante alimento na mesa das famílias”, ressalta.
Para o superintendente do Senar Maranhão, Luiz Figueiredo, o resultado é reflexo de um trabalho integrado. “Quando o trabalho é feito em parceria, ele se fortalece. O produtor ganha renda, o município se desenvolve e a cadeia produtiva se consolida”, destaca.
Mais do que atender à demanda da Semana Santa, a piscicultura maranhense reafirma seu papel estratégico no desenvolvimento rural. Do tanque à mesa, o peixe produzido no estado representa trabalho, organização e a capacidade do produtor rural de transformar conhecimento em resultado — levando alimento, renda e esperança para milhares de famílias.



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